COQUETEL

08/04/2014

COQUETEL – Um show

Em 1992, já morando em Ribeirão Preto, depois de 20 anos em Brasília, junto com o amigo João Vitorino, íamos para um torneio na querida capital federal. De Kombi, com alguns bicudos e três curiós da Lagopas. Bem,  durante a viagem, comecei a escutar um curió de canto praia repetindo 5/6 cantos. Logo reclamei com o João: “seu bicho está arrebentando com os meus, dá um jeito”. Ele foi lá e abriu a capa da fêmea para travá-lo, não adiantou. Reclamei de novo, aí o jeito foi soltar a fêmea dentro da gaiola dele. Parou de cantar e seguimos viagem tranquilos. No outro dia o torneio, coloquei meus curiós, ao dar a volta na roda percebi aquele bicho (o curió do João) “matando” cantando alto e repetindo de seis a dez cantos, um exagero e ainda com algumas penas pardas, bem novinho. O João pelejando para vendê-lo, aí veio o azar dele, travou e não quis cantar mais. Havia se espantado e ficou pulando de um lado para o outro. Aproveitei e disse, fico com ele: “te dou aquele curió ali e te volto uma merreca” . Deu certo, peguei o curió. Senti a sensação que havia pegado um campeão. No momento, tomei até um gole de cachaça com limão em comemoração, daí o nome COQUETEL...Vi que a anilha dele era fechada e bem justa,  estava claro que era produto de criação doméstica, não consegui ver direito a respectiva numeração. Pedi ao Sandro que cuidava dos bichos para mim: “veja aí o número correto a anilha para colocar na minha relação” Me disse ele: 41531-SERCA, registrei e não dei muita bola para a estranha numeração.   Mal sabia eu que ainda o bicho era um extraordinário repetidor que só constatei quando cheguei em casa, cantava até um minuto e meio. Parecia que ele era treinado, mas só repetia quando ficava irritado. Melhor assim porque não se desgastava de tanto cantar, como acontece com os curiós que só cantam repetindo, logo ficam roucos, perdem a voz e acabam ficando doentes antes do tempo, por esse motivo.  Mudou de penas e aqui ficou para participar do “Canto Livre com Repetição” – o peito de aço - , na época gostava dessa modalidade. Comecei então a viajar com ele para vários lugares, ganhando troféus de repetição. Era de assombrar, era só irritá-lo, esfregando em outro ou quando ouvia um curió estranho por perto. Danava a repetir, um show porque cantava repetindo alto e bonito. Até que, pensei: “vou colocá-lo na roda, quem sabe??”. Fui devagar até que o coloquei na roda, tirou logo terceiro lugar, logo na primeira vez. Na segunda vi o tanto que o bicho era desesperado, entrava na roda encasalando de uma lado e de outro, gritando na cara do vizinho e fazendo um limpa. O mais interessante é que descobri que ao chegar na roda ele dava um show à parte. Diversas vezes, desencapei o bicho, pegava a gaiola na palma da mão e dava um volta em torno da roda e ele num canto só, repetindo e gritando, um espetáculo. Tirei mais alguns poucos troféus com ele, eis que de repente ele em algumas rodas aqui em SP, ele ficava pulando de um lado para o outro e parava de cantar. Só percebi muito tempo depois o que acontecia: Quando ia tomar um café lá fora um indivíduo criador até renomado no meio, ia na gaiola E o espantava passando o dedo nas talas da gaiola. Uma coisa de doido e que já havia acontecido com outros pássaros meus: Cassino e Carijó, infelizmente. Sua maior proeza: fui a um torneio em Rio Verde GO, fortíssimo mais de 200 curiós na roda. Lá estava Cometa (campeoníssimo) e muitos outros, Coquetel deu um verdadeiro show, tirou uns cinco curiós de cada lado, gritando e repetindo o tempo todo, deu 294 cantos em quinze minutos, lá na terra do Cometa que apareceu com mais de 300 cantos, de espantar a qualquer curiozeiro de fibra essa quantidade de canto. Ficamos em segundo lugar, tudo bem. Aí, viemos para Ribeirão, convidei o João da Vela, Luiz Carlos Tuareg e Romualdo para dormir aqui em nossa casa, já que iriam para o Rio, era metade do caminho. Chegamos aqui já era uma da manhã de segunda, aí tratamos dos bichos e penduramos Coquetel na antessala da cozinha onde era sua morada. Água na banheira, ele tomando banho e nós jantando aquela ora. De repente, começou a cantar começou a cantar e a passar 50 a 60 cantos, gritando a toda força. O espanto foi geral, o João não resistiu: “me cede esse bicho”. Não teve jeito, passei o Coquetel para ele. Só que não dava para ele levar, não tinha lugar no carro. Sem problemas, falei: “daqui quinze dias é o torneio de Araruama posso leva-lo”. Deu certo, assim fiz. Cheguei para o torneio e o coloquei na roda para o João, aí é que percebi o tal “espanto”. Um amigo do Rio, me disse: “fulano de tal, foi lá e passou o dedo na gaiola do teu curió, cuida disso” . Não precisou dizer mais nada, aí é que senti o que acontecia com ele nos torneios daqui. Esse tipo de coisa, não deveria acontecer mas é comum em roda de curiós, por isso não se pode descuidar. Há gente que é tão fissurada que supõe que  tem que ganhar de qualquer jeito, não importa se desrespeita o companheiro ou desrespeita o pássaro. Parece mentira mas é a pura verdade o que estou dizendo. O mais interessante no Coquetel é a procura que fizemos sobre sua ascendência. Disseram que era de Altinópolis SP, passei lá em todos os criadores e cada um falava uma coisa e nada de aceitável. Desisti de procurar porque as informações não batiam, até que foram verificar direito o número da anilha que nada mais era que SERCA/413, criação do Marcílio Picinini, veja só. Foi o João que não enxergava direito é que descobriu a verdade. Pela leitura equivocada fizemos uma confusão danada e até perdemos de ter aproveitado a genética dele. Ficou programada então a cessão para produção de filhotes, lá no Criadouro Picinini, logo depois dos torneios. Aí, veio o pior, o espetacular Coquetel veio a óbito, frustrando a todos e deixando saudades. Foi muita tristeza porque o futuro dele seria de muitas glórias, nos deixou antes do tempo. O que fazer cada um tem a sua histórias e os seus momentos.

 

Aloísio Pacini Tostes

Bonfim Paulista – Ribeirão Preto SP

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