COBIÇA

07/05/2013

Só de falar nele me doi o coração. Bom, conheci Cobiça na casa de Chico Bernardes em Taguatinga no ano de 88. Cheguei lá numa tarde e ele me falou: "estou com um curió aqui fora de série, só vendo pra crer. Ele veio de Uruaçu Go, ainda pintado e tá com a cara toda rasgada" . Em seguida ele o colocou de frente com outro curió a uns 50 cms um do outro. Não demorou 1 minuta e ele abriu de canto em cima do outro, mesmo todo espantado. Fiquei impressionado com o bicho e perguntei: "quanto vale?" . O Chico desconversou e ficou me atazanando:  "esse você vai ter que enfrentar com seus curiós e perder", brincou. O canto era ruim um grego danado. Reconheci,  "esse curió realmente é promissor e vai dar trabalho". Passado alguns dias o Chico me falou "coloquei o bicho para chocar e ele está tratando da fêmea no ninho, uma beleza". Depois me telefonou dizendo: "nasceram os filhotes e ele trata muito bem". Só ficava admirando, e nada mais. Num belo dia, estava eu trabalhando lá no BB no Sede IV da Asa Norte, chegou o Chico meio acabrunhado. Espantei com a presença dele lá onde trabalhava mas havia uma explicação: "Cara,  estou num sufoco, minha filha está com apendicite e estou precisando de uma grana urgente, quer ficar com o curió de Uruaçu"? Levei outro susto, mas foi assim que adquiri o Cobiça. Busquei o bicho - ainda pintado - logo entrou e muda e ficou preto, mas muito espantado. Era só pegar na gaiola que ele se batia para todo o lado. Só que não batia a cara, só o peito e os pés. Sempre dando "quem-quem" e pronto. Assim, que começou a cantar já saiu meio "paracambizado" , quer dizer pegou um canto bem razoável. A intenção era a participação em roda então estava muito bom. Arrumei uma curiola bem mansa e macheadeira para o acasalamento, deu certo. Ele gostou e abriu fogo de vez. Aí o levei a um treino mas percebi que estava inviável a participação, pois quase saia da gaiola quando chegava gente estranha por perto. Pus na cabeça, que teria que trabalhar muito o bicho se quisesse sucesso nas rodas. Tive uma idéia, vou levá-lo para viajar em todos os torneios para ele se acostumar com as viagens. Chegando lá não ponho nas rodas e assim irei treiná-lo. Dito e feito, passei quase dois anos nessa lida. Lembro-me, foi para Cuiabá, Rio, Ribeirão Preto, Goiânia e outras cidades. Ficava encapado , nos hotéis e antes de começar a roda sempre o manuseava. Colocava na roda às 7:00 antes do início e retirava às 8:00 quando chegavam os participantes. Fui fazendo assim até perceber que ele já não se incomodava tanto. Lancei ele pela primeira vez em um torneio fraco em Goiânia, cantou muito mas sempre olhando de lado mesmo assim, ficou em sexto lugar. Emplacou, também dava de seis a doze cantos de cada vez!! Assobiava e rasgaga três a quatro vezes, dessa forma se mostrava muito produtivo, muita quantidade. Ali o batizei porque todos que o olhavam ficavam admirados como eu. Então o nome "COBIÇA" se encaixava bem. Nem preciso dizer foi uma sequência de sucessos, em todos os torneios entre os primeiros e ainda um tanto espantado. A idéia era ir aos poucos chegando para ser o melhor curió do Brasil, ele seria praticamente imbatível, porque não havia tempo quente. Quanto mais acossado pelo curió vizinho mais cantava. Se chamasse para a briga ele aumentava o volume e começava a passear na gaiola cantando mais baixo e aumentando a quantidade. Era um espetáculo vê-lo na roda. Um dos dias que mais fiquei chateado em torneios foi quando fomos para o Rio de Janeiro numa roda de mais de 200 curiós e o Cobiça estava cantando para ganhar o torneio. Bom, um amigo de Brasilia que não vou dizer o nome foi marcar o curió do lado e ficou de propósito se balançando de uma lado para o outro e cada vez que ele vinha para o lado do Cobiça ele cortava o canto e com isso diminuiu consideravelmente a quantidade. Ele ficou em oitavo, mas a esperança crescia cada vez mais. Teria com certeza o Campeão Nacional no próximo ano. Bem, ele precisava mudar de penas e não queria entrar em muda. Tinha ele e o extraordinário Corrupto na minha casa no Lago Norte e eles cantando muito e sem mudar. Aí tive a infeliz idéia, vou levá-los para algum amigo e pedir que eles façam a muda. Coloquei os dois um duas gaiolas iguais com a mesma capa. Tinha a intenção de levar o Cobiça para a casa do Pedrinho e o Corrupto para a casa do Geraldino. E assim fiz, num sábado fui para Taquatinga e levei os dois. Na hora de deixar os bichos, troquei e deixei o Corrupto no Pedrinho e o Cobiça no Geraldino. Embora tinha preocupação com os dois a ênfase era com o Cobiça. Percebi que havia trocado o local deles, pensei "não tem importância, nos dois lugares eles estarão bem, são pessoas muito amigas e de pura confiança". De vez em quando ia por lá e perguntava, como estão. Tudo bem, era sempre a mesma resposta. Deveria tê-los buscado porque já haviam terminado a muda mas resolvi esperar mais um pouco para que não houvesse o risco de requeimo. Até uma tarde, recebi o telefonema do Geraldino: "Aloisio, venha aqui depressa porque seu curió está meio problemático". Era por volta das 18 horas, estava quase escurecendo, sai correndo do Banco apavorado. Cometi até uma  insensatez, tinha um Monza Hatch 86 2.0, entrei na Estrutural e fui até a 200 kms por hora. Costurando no meio da pista e cheguei lá na MNorte em poucos minutos. Quando cheguei e peguei o bicho ele estava "fofo" no fundo da gaiola com a respiração ofegante. Perdi a fala, não sabia o que fazer e não sabia o porquê. Na realidade a filha do Geraldino havia jogado veneno para barata spray  e intoxicado o bicho. Se fosse hoje teria sabido resolver. Naquela época não havia nenhum tipo de informação e não adiantou levar para a veterinária. Ela também não sabia o que fazer. Só sei que lá pelas nove da noite ele veio a óbito na minha mão. Nunca na minha vida tive isso, mas me deu vontade de acabar com tudo e não mais mexer com pássaro. Fiquei muito triste durante uns três dias. Depois conversando com amigos recuperei a normalidade e considerei a coisa como uma fatalidade. Mais uma agrura em minha vida que teria que superar. Ficou apenas a  lembrança do Cobiça  e a quebra da esperança de ser campeão nacional com essa maravilhoso e cobiçado curió.  

 

         

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